Monday, October 30, 2006

Crank - Veneno no Sangue ***

Lady in the Water - A Senhora da Água ****

Paradise Now - Paraíso, Agora ***

Este filme independente tem a sua pertinência como veículo manisfestação contra qualquer violência em nome de pretensas causas, estejam estas ligadas à religião ou a um ideal. Embora não se tratando declaradamente de um filme político, este filme visa focar o confronto Israelo-Palestiniano, confronto que é melhor caracterizado pelo que advém dele, a morte inglória. Sendo assim, o cineasta palestiniano optou por demonstrar o quão ridiculo é o suposto martírio pela causa religião e o quão humanas são as pessoas que o cometem. Este lado é naturalmente o lado mais imparcial de olhar para esta questão, demonstrando assim como a inscrição extrema de uma posição de força obriga a uma resposta extrema do lado oposto.
Sendo este conflito um assunto especialmente triste, era fácil fazer um filme que chocassse ao espectador, tratando a violência de forma crua, violentando e dramatizando. Contudo, o cineasta palestiniano foge a este cliché conseguindo tornar a sua obra num bom exercício de cinema acerca de relações humanas, sem dúvida, o tópico maior deste filme. Consegue através da mestria com que fabrica inúmeros pormenores relacionais , algo que humaniza as personagens através das flutuações entre drama e comédia, em suma, a vida de todos nós.
Como pormenor especialmente interessante, pela sua leveza e quase imperceptibilidade, há uma clara sátira religiosa à igreja católica e aos momentos que antecederam a morte de Jesus Cristo, criando a analogia de que este terá sido o primeiro grande mártir religioso.

Monday, October 16, 2006

Clerks 2**

O filme de Kevin Smith deve ser visto por uma razão. Essa razão reverte para os pequenos trechos em que o cineasta/argumentista dá largas ao seu fabuloso humor desprovido de qualquer bom gosto e etiqueta, características base dos seus diálogos.
Quando Kevin Smith cria personagens baseadas nos diálogos e não tanto numa necessidade de enredo, o resultado é excelente. Um pouco ao jeito da série Seinfeld, Kevin Smith é génio a escrever sobre os nadas. Nesse sentido, Kevin Smith, nunca poderá vir a ser mais do que um pensador sobre o lado aparentemente mais fútil da vida. Um lado mais engraçado, genial e humano, tal como em Seinfeld.
Se nas primeiras obras (Mallrats e Clerks), esse descomplexo era patente, já em Dogma, Jersey Girl e neste Clerks 2, o cineasta opta por se forçar a uma história, retirando-se da beleza do seu nada. Tudo o que Kevin Smith faz melhor está patente na sua obra mais leve, Jay and Silent Bob contra-atacam, um filme absolutamente genial, neste tipo de comédia, e que não procura ter um enredo. Baseia-se na mais pura estupidez e nas fabulosas criações humoríticas que advêm dela, quando bem explorada.
O filme agora no cinema, Clerks 2, dá-nos dois momentos desses. O primeiro alusivo a uma extraordinária discussão sobre a saga Star Wars e a triologia do Senhor dos Aneis. E a segunda, de uma cena de sexo com animais.
Este filme é, sem dúvida, para pessoas com estômago forte e descomplexadas. Há, no entanto, que lhe retirar toda a "palha" pseudo-séria para usufruir de alguns (poucos) diálogos geniais.

Monday, October 09, 2006

The Black Dahlia - A Dália Negra*

É facil perceber o porquê de James Ellroy (autor do romance The Black Dahlia) se ter colocado à margem da película de Brian de Palma. Quando James Ellroy exultou a qualidade da adaptação para cinema de L.A. Confidential (um dos melhores policiais da história do cinema, seguramente), colocou a origem dessa qualidade na correcta simplificação dos seus complexos enredos e na cuidadosa ritmica que Curtis Hanson encontrou para contar a história. Nesse aspecto, quer Brian Helgeland quer Curtis Hanson, foram mestres e o resultado verificou-se brilhante.
Brian de Palma, que nunca foi um grande argumentista, demonstra aqui, mais uma vez, que não o é. Faz escolhas erradas ao preferir uma complexidade na história em detrimento de uma maior complexidade nas personagens, escolha essa que Ellroy enalteceu em L.A. Confidential. Ao criar personagens superficiais, leva a que espectador, por e simplesmente, não se interesse pelo seu destino.Para perceber onde errou este filme, Brian de Palma apenas necessitará de procurar na sua cinemateca a obra-prima de Roman Polanski, Chinatown, um filme que acerta em tudo o que este errou.

A nível de casting, fabuloso em L.A. Confidential (foram aí descobertos os talentos de Russel Crowe e Guy Pearce, e uma Kim Basinger como nunca a tínhamos visto anteriormente), o erro é total em a Dália Negra. Nenhum dos protagonistas parece correr qualquer risco com a sua personagem ou pelos menos, disfarçar o hiato temporal entre a actualidade e o contexto do filme, passado nos anos 40. Também verdade seja feita, os actores não são responsáveis nem pelo casting, nem pelo argumento, duas peças fundamentais para que qualquer obra de cinema resulte.

Brian de Palma é, sem qualquer dúvida, um génio da realização e para quem esteja disposto a ver um filme apenas pela sua realização, decerto não sentirá que gastou mal o seu tempo. As "maravilhas", como os planos não-editados ou os slow-motions no momento exacto, estão lá. No entanto, se relembrarmos as melhoras obras de Brian de Palma, verificaremos que na retaguarda (ou não) dessas criações artísticas, estão alguns dos melhores argumentistas que já passaram por Hollywood: David Koepp ( em Snake Eyes, Missão Impossível e Carlito's Way), David Mamet (em Os Intocáveis) e Oliver Stone (em Scarface).

Como ponto positivo deste filme, temos a fabulosa banda sonora do mestre Mark Isham, um compositor minimalista que capta a essência e ritmo da história melhor do que ninguém. E neste caso, bastante melhor do que Brian de Palma.

Como conclusão, a Dália Negra de Brian de Palma peca pelo maior defeito que se pode praticar numa obra artística, a presunção. Presume-se complexo, não concretizando; presume-se sentimental, não aprofundando e finalmente; presume-se violento, não fundamentando. É, em suma, um produto pobre num invólucro rico.